“Estou em Cristo; só não estou na igreja”: entenda por que ser crente desigrejado biblicamente não faz sentido.
- Derick Mendes

- 30 de ago. de 2024
- 6 min de leitura
Introdução
Ao longo da história do Brasil vemos uma grande migração da população entre diferentes perfis de igreja. Inicialmente o Brasil era quase exclusivamente católico. Com a fundação das igrejas protestantes históricas (principalmente a partir do século 19), o segmento evangélico começa a crescer. Nas últimas duas décadas do século passado, o movimento pentecostal começa a ganhar força e a atrair pessoas oriundas tanto da igreja católica quanto das igrejas evangélicas tradicionais. A partir dos anos 2000 em diante ocorre um crescimento explosivo de igrejas pentecostais e neopentecostais. Também se torna cada vez mais comum o aparecimento de igrejas de rótulo independente (as que não pertencem a nenhuma denominação, convenção ou organização maior).
Por mais que os evangélicos cresçam a cada censo realizado e que o catolicismo esteja perdendo terreno no país, duas coisas precisam ser ditas sobre esses evangélicos. A primeira é que eles são cada vez menos tradicionais doutrinariamente (igrejas de denominações históricas estão ficando raras e correndo risco de extinção). A segunda é que, entre esses crentes, muitos já se enquadram como “desigrejados”. Ou seja, tem muita gente chegando pela porta da frente da igreja, mas também muitos saindo pelos fundos. Segundo os dados do último censo do IBGE, 1 a cada 5 brasileiros que se consideram evangélicos já não fazem parte de uma igreja.
Os motivos para esse fenômeno geralmente envolvem decepções da mais diversas naturezas, considerar a instituição como irrelevante na sociedade ou por convicção filosófica de que o cristianismo pode (e deve) ser exercido de forma individual (ou, ao menos, de forma não institucionalizada). Nesse contexto, o objetivo desse texto é entender e listar, à luz da bíblia, seis motivos pelos quais essa prática não é correta.
1. Seria desobediência a uma ordem expressa
Em Hebreus 10.25, o autor sagrado diz: “Não deixemos de reunir-nos como igreja, segundo o costume de alguns, mas encorajemo-nos uns aos outros, ainda mais quando vocês veem que se aproxima o Dia”.
Pelo texto vemos que esse problema não é novo e existe essa ordem de não abandonar a comunhão da igreja. Ser desigrejado é, antes de tudo, um ato de desobediência à palavra de Deus e ao Deus da palavra.
2. Seria um insulto ao edificador da igreja
Mateus registrou as seguintes palavras de Jesus a Pedro: “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mateus 16.18). Jesus se coloca metaforicamente como construtor. Em Hebreus 3 essa figura é reforçada e, nas cartas de Paulo vemos que Jesus também é o alicerce (1 Co 3.11) e a pedra angular (At 4.11).
Dizer que a igreja é algo dispensável ou que não serve para nada, é dizer que Jesus edifica coisas inúteis, que ele é um alicerce precário ou ainda um material de construção de baixa qualidade. Por mais que tentemos separar as duas coisas, ofender/menosprezar a igreja é insultar seu construtor e dono.
3. Seria uma vida individualista e egoísta
O rei Salomão afirmou: “Busca satisfazer seu próprio desejo aquele que se isola; ele se insurge contra toda sabedoria” (Pv 18.1). Também são bem conhecidas as palavras de Jesus: “pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali eu estou no meio deles” (Mt 18.19).
É óbvio que Deus também está presente quando estamos sozinhos. Nosso relacionamento com Ele também tem seu caráter individual. A própria Palavra vai nos orientar a entrarmos em nosso quarto, fecharmos a nossa porta e termos nosso momento a sós com o Pai (Mt 6.6). No entanto, é possível perceber que nossa caminhada cristã não é feita apenas desses momentos. Seria egoísmo! Nossa adoração é individual e coletiva. E nenhum desses perfis deve ser negligenciado.
4. Seria a mutilação do corpo de Cristo
“Ora, vocês são o corpo de Cristo, e cada um de vocês, individualmente, é membro desse corpo” (1 Co 12.27). Veja um interessante complemento dessa ideia em Rm 12.4-5: “Assim como cada um de nós tem um corpo com muitos membros e esses membros não exercem todos a mesma função, assim também em Cristo nós, que somos muitos, formamos um corpo, e cada membro está ligado a todos os outros”.
A metáfora da igreja como um corpo é muito apropriada. Cristo é a cabeça, conforme Cl 1.18. Biologicamente, a cabeça é o grande centro gerenciador das demais funções do corpo. Sem ela, o restante não funciona. Sem Cristo não dá para a igreja existir! Entretanto, muita gente acha que dá para viver sem a igreja.
No corpo humano, é possível que algumas partes sejam removidas sem que o organismo inteiro morra (ovários, apêndice, amídalas, vesícula, entre outras). No entanto, quando essas remoções ocorrem, há prejuízo tanto para a parte que sai, quanto para a parte que fica. A peça removida estará completamente morta dentro de poucos minutos. O restante do corpo até segue em frente, mas prejudicado, com limitações. Algumas funções não vão funcionar como antes ou até mesmo serão interrompidas!
A palavra de Deus nos diz que a igreja é o corpo físico de Jesus aqui na terra. Desigrejar é mutilar esse corpo. Não dá para ficar ligado exclusivamente a Jesus fora do corpo. Nossa separação do corpo causará, em questão de tempo, nossa morte espiritual. Para ser sincero, todas as pessoas de quem ouvi a promessa de que seriam cristãs fora da igreja passaram a ter o estilo de vida semelhante a de um não-crente em menos de 3 anos. No entanto, além de ligados a Jesus, estamos unidos uns aos outros. Deixar o corpo fará com que a igreja fique aquém do que poderia ser.
5. Deixaríamos de receber algumas bênçãos
Ao longo da nossa caminhada, há momento em que nós estamos precisando de uma oração, conselho, ensino, motivação ou apoio no trabalho em projetos específicos. As necessidades são muitas e é quase impossível que uma só pessoa consiga atender a todas essas áreas. Dentro desse contexto, Deus “designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado” (Ef 4.11-12).
Deus usa pessoas com diferentes dons e habilidades para atender as diferentes demandas da igreja. Quem se afasta, não apenas deixa de ser útil ao Reino como deixa de ser abençoado com todo esse suporte, uma vez que não somos autossuficientes em todas as áreas, nem encontraremos esse mesmo tipo apoio para questões espirituais em pessoas fora do contexto da igreja.
6. Seria impossível cumprir algumas ordenanças
Jesus nos deixou algumas ordens. Em uma delas, a ceia, ele disse “façam isso em memória de mim”. É uma ordem e é plural. Não é “faça”; é “façam”! Como você realizaria a ceia do Senhor sozinho? Que sentido faria? Confesso para vocês que na maioria das vezes em que acompanhei a realização da ceia pelo culto online, eu acabei apenas assistindo e não participando junto. Talvez você também sinta essa dificuldade. Parece que só faz sentido quando estamos todos juntos no mesmo lugar, comendo o pão e bebendo o conteúdo do cálice ao mesmo tempo, em um mesmo espírito e propósito.
Além disso, vamos analisar o famoso texto da grande comissão: “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado” (Mt 28.19-20). A primeira ordem dessa lista é fazer discípulos. Sabemos que o discipulado é relacional. Envolve andar com alguém. Repare ainda que está no plural (discípulos), mostrando que a expectativa é que você caminhe na fé com mais de uma pessoa. É impossível fazer discípulos à parte de um contexto maior de comunidade de fé.
O segundo item, o batismo, também perde o propósito fora do contexto da igreja. O batismo não deveria ser um testemunho público da morte para o pecado e da nova vida em Cristo? Você vai batizar o discípulo que você acompanhou na ausência de testemunhas? Depois do batismo, esse novo convertido faz o quê da vida? Perceba que, na igreja, há um local de acolhimento para que essas pessoas sejam acompanhadas dali em diante.
O terceiro item, ensinar a obedecer, também passa por uma espécie de figura de interação entre um professor experiente e seus alunos. Ou seja, também envolve relacionamento, grupo, comunidade. Se continuássemos a olhar outros textos, veríamos que existem muitas ordens a nosso respeito que são impossíveis de serem obedecidas em uma vida desigrejada e individual.
Conclusão
A bíblia está cheia de instruções que apontam claramente para a necessidade de vivermos a nossa espiritualidade de forma coletiva. Não só porque, como seres humanos falhos e fracos, precisamos disso, mas porque o próprio Deus quer que seja assim. Aqui foram listadas seis razões pelas quais biblicamente ser crente sem igreja não faz sentido nem faz bem, mas haveria muitas outras! Se lembrar de alguma, deixe nos comentários. O inimigo, como sempre faz, tenta iludir alguns a acharem que essa é uma opção possível para, primeiro arrancar a pessoa da igreja e, depois, arrancar Deus da pessoa. É possível acreditar que Deus existe sem estar numa igreja, mas é impossível agradar a Deus com uma vida obediente caminhando sozinho. Que possamos congregar por amor ao Senhor e não a nós mesmos. Que possamos olhar para Ele e não para as falhas ao nosso redor. E que o próprio Deus nos traga à memória a sua Palavra sempre que nosso coração desanimar e nos sentirmos tentados a abandonar a comunhão.
Escrito por Derick Mendes




Ótima reflexão!