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Existem regras de etiqueta no culto a Deus? (Parte 1)

Por ser um assunto muito extenso, esse texto será dividido em duas partes. Hoje, na primeira delas, vamos entender um pouco melhor sobre esse conceito de regras de etiqueta e pensar na sua aplicabilidade no culto ao Senhor com foco Nele (Deus). Na segunda parte, falaremos de etiqueta pensando na relação entre as pessoas que cultuam juntamente conosco.

 

A origem e variações das regras de etiqueta

Desde os faraós egípcios até o império romano, os poderosos sempre impuseram regras de comportamento para que fossem tratados de forma especial. Isso visava especialmente mostrar que eles não eram como os escravos, as pessoas pobres e nem mesmo um membro qualquer da nobreza. Essa preocupação se amplia na França, com o rei Luís XIV e, desde então, criaram-se regras de etiquetas em diferentes culturas e para as mais diversas situações.

  Essas regras não são universais: variam temporal e socialmente. Um exemplo disso seria chegar na casa de alguém que o convidou e você mesmo abrir a geladeira do anfitrião e pegar uma garrafa de água gelada para se servir. Esse comportamento é malvisto no Brasil, mas é totalmente comum nos Estados Unidos. Por outro lado, se chegássemos em um restaurante norte-americano, levantássemos a mão e disséssemos: “Garçom, por gentileza, eu quero o item 4 do menu e uma lata de refrigerante”, seríamos considerados extremamente rudes. Lá não se chama o garçom pela profissão e nem se diz “eu quero” para pedir as coisas. Aqui no Brasil isso não seria um problema.

  Sabemos ainda que não nos comportamos da mesma forma no cinema, num cemitério, na feira ou numa sala de aula. Cada lugar foi feito para um propósito e, nesses ambientes, existe o que é adequado e o que não é. Nem sempre existe um documento por escrito definindo isso, mas a regra de etiqueta está lá, implícita. E se em todo lugar existe um tipo de comportamento considerado adequado ou inadequado, por que seria diferente na igreja?

 

A etiqueta no culto a Deus

Em Eclesiastes 5.1 diz: “Guarda o pé quando entrares na Casa de Deus”. Em outras versões, diz-se: “preste atenção no que faz”, ou “tenha cuidado com o que faz”. Esse texto nos diz que o próprio Deus não aceita sua presença e seu culto dentro do templo de qualquer maneira. E, talvez, um dos fatores mais determinantes de como nos comportaremos é se vamos adorar a Deus ou assistir ao culto a Deus. Vamos entender melhor isso.

Adorar a Deus é uma ação, ao mesmo tempo, individual e coletiva. Quando você adora, isso exige seu amor, sinceridade, concentração e reverência. O foco é em Deus e a preocupação maior é em agradá-lo. Já quando assistimos ao culto, quem adora são os outros; e nos tornamos expectadores disso. Para assistir não precisa de amor, sinceridade ou reverência. Você decide se vai se concentrar ou não. O foco não é em Deus e sim em você mesmo. Assim como em um filme, se ele não está nos agradando, podemos trocar, sair, conversar com quem está perto, mexer no celular ou qualquer coisa do tipo.

No templo, quem vai para assistir presta atenção apenas no que lhe interessa. Talvez apenas o louvor coletivo e a mensagem (se for muito bem feita). Raramente saímos do culto pensando: “é... hoje foi bênção! Creio que Deus recebeu a nossa adoração de bom grado”. É muito mais comum ouvir comentários do tipo: “Eu amei o culto de hoje” ou “Não gostei muito do culto de hoje”. Se eu gostei, eu aplaudo quem cantou. Se eu gostei pouco, eu falo um “amém”. Não agradando, nada faço. Por mais que, da boca para fora, digamos que vamos ao templo adorar a Deus, geralmente estamos com a expectativa de sermos agradados: uma boa música, uma palavra de esperança, “recarregar as baterias”. Nada disso é errado em si, mas não pode ser o objetivo principal de estarmos ali.

Em Lucas 4.8 “está escrito: ‘Adore o Senhor, o seu Deus, e só a Ele preste culto”. Quando adoramos a Deus, Ele precisa ser o foco. Logo, tudo o que visa trazer a atenção para qualquer outra pessoa precisa ser repensado. Vou dar alguns poucos exemplos práticos disso.

Se uma pessoa que canta extremamente bem começar a fazer notas inalcançáveis, melismas complicadíssimos e outros “truques” vocais durante o período de louvor coletivo, é altamente provável que a igreja pare de cantar e fique mais inclinada a assistir a uma performance (especialmente porque não vai conseguir fazer vocalmente as mesmas coisas). Se um grupo coreográfico ou teatral começar a fazer vários malabarismos, pirotecnia, muitas luzes, cores, movimentos, fitas, aros, bolas e afins, corre o risco de isso prender tanta a nossa atenção na beleza dos detalhes e na dificuldade do que está sendo realizado que talvez esqueçamos de Deus no meio do processo. Da mesma forma, se o objetivo maior de uma pregação é deixar Deus falar conosco, não faz qualquer sentido um preletor gastar boa parte do tempo contando piadas, histórias da infância, mandando abraço para pessoa A, B ou C, relembrando histórias antigas e saudosas com cada uma delas ou qualquer coisa do tipo. Em tudo o que fazemos no culto a Deus, precisamos pensar se era realmente aquilo que Ele esperava de nós. No nosso lugar, Jesus faria do mesmo jeito?

 

As regras do dono da casa

Para finalizar essa primeira parte, eu gostaria de apresentar algo que nos parece bem paradoxal. Diversas pessoas na Bíblia, ao terem contato com a presença/glória de Deus, acharam que iriam morrer. Dois exemplos clássicos disso foram Isaías (Isaías 6.1-6) e João (Apocalipse 1.17-18). Ao mesmo tempo, nos lembramos de Jesus falando do bom pastor que busca a ovelha perdida, da dracma perdida e do filho pródigo. Em todos esses casos fica claro que as vidas têm muito valor para Deus e que há muita festa quando o perdido volta para casa. Recordem ainda que Jesus disse que iria para o Pai nos preparar um lugar porque na casa do Pai há muitas moradas.

Deus tem prazer em ter pessoas em sua casa! Mas como conciliar essas duas realidades: uma presença que nos dá medo (e sentimos vontade de nos afastar), com um Deus que ama nos ter por perto? Na verdade, isso nos fala muito sobre o culto a Deus! Ele nos ama e nos quer, mas não de qualquer jeito!

Lembro-me quando eu, ainda criança, queria convidar um amigo para ir lá em casa brincar e pedi permissão ao meu pai. Naquele dia, ele não deixou. Aí eu falei: “mas a casa também não é minha? Por que só você e minha mãe podem escolher quem vem aqui ou não”? E me lembro do meu pai respondendo algo do tipo: “Você é meu filho. Eu te amo. Você mora aqui conosco, em família, mas a casa não é sua”.

Lembro que foi uma verdade difícil de ouvir na época. Hoje, com a mentalidade que tenho, ela faz total sentido! E na casa de Deus é a mesma coisa: Ele nos ama, somos seus filhos, somos mais que bem-vindos e estaremos constantemente ali em família. Mas a casa é Dele; não nossa! E isso muda completamente como nos comportamos ali. Só devemos fazer ou deixar de fazer o que nosso Pai permite. Se entendemos e lembrarmos quem é o dono da casa, isso já nos fará errar menos.

 

Conclusão

Fica muito evidente que as regras de etiqueta no culto existem e são muito mais interessantes de serem pensadas por meio de princípios do que por uma lista extensiva do que “pode ou não pode”. Deus é espírito e importa que O adoremos em espírito e em verdade. Um culto centrado em sua pessoa, onde eu não entrego menos do que Ele merece, nem vou além do que Ele me permite, pois a casa é dEle. No entanto, existe outro fator importantíssimo: eu cultuo ao mesmo tempo que outras pessoas. Será que minha adoração invade/atrapalha a do outro? Meu comportamento impede o outro de se concentrar em Deus? Falarei disso, em breve, no próximo texto.

 

(Se puder, deixe nos comentários a sua opinião sobre esse assunto)


Escrito por Derick Mendes

 
 
 

1 comentário


thaispinho1798
12 de ago. de 2024

Sei que sou suspeita, mas eu concordo e estou ansiosa para a segunda parte. Lembro-me que antigamente eu conseguia me concentrar, mesmo que eu estivesse em um ambiente com muito barulho. Hoje em dia, Infelizmente, sinto que estou perdendo essa capacidade. Já teve situações das quais eu não consegui entender a mensagem porque havia, ao mesmo tempo, conversas paralelas durante esse momento. Imagino que deve ser muito difícil para alguém que tenha algum diagnóstico leve de TDAH e até mesmo para visitantes não crentes.

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